Novo Impactos do diagnóstico de infertilidade na saúde mental

A experiência da infertilidade sempre fez parte da existência humana. Inúmeros fatos, rituais e crenças em diversas épocas e culturas testemunham a vivência dolorosa de não poder conceber um bebê naturalmente. 

Para além de causas e consequências, a infertilidade produz marcas que podem acompanhar a pessoa por muito tempo. 

O desejo frustrado de gerar uma vida faz o indivíduo trilhar um caminho de lutas inevitáveis que passam pelas tentativas frustradas, notícia do diagnóstico, realização dos tratamentos e pela decisão de prosseguir ou não o processo reprodutivo. Um processo emocional importante e abrangente.

A infertilidade é um quadro impactante que pode provocar um momento de crise na vida dos parceiros, do indivíduo e da família. As pessoas padecem quando não conseguem engravidar. 

Após doze meses de vida sexual ativa, sem a utilização de qualquer método contraceptivo, veem-se diante da necessidade de consultar um especialista para definir um possível diagnóstico de infertilidade, que decorre de um processo que envolve pesquisa clínica e laboratorial a fim de encontrar uma razão que justifique a natureza do problema. 

A baixa autoestima tende a ser um dos primeiros sinais de que algo não está bem. Frustrações, ansiedades, medos e angústias também aparecem sinalizando o comprometimento da saúde emocional das pessoas envolvidas nessa jornada. 

De forma mais ou menos intensa, pode envolver quadros clínicos de depressão e/ou ansiedade, advindos das experiências vividas antes, durante ou depois dos procedimentos de Reprodução Assistida (RA).

Aspectos Emocionais

Diante do diagnóstico, a maioria das pessoas tem a vida afetada nos seus vários aspectos: conjugal, familiar, profissional, pessoal e social. 

Mesmo para aquelas que não mais possuíam esperanças de terem seus filhos de maneira natural e passaram a contar com recursos da tecnologia e da Medicina Reprodutiva, a inabilidade de conceber, gestar e dar à luz pode ser vivida como uma situação penosa e estressante, cujas raízes se encontram na ideia de que todos podem procriar, gerar filhos. 

O imaginado pela maioria das pessoas é que reproduzir é “natural” ao ser humano e isso pode ocorrer no momento que a pessoa desejar.

Surge, assim, um turbilhão de emoções: ideias e crenças reconhecidas no meio social se misturam a expectativas pessoais, conjugais e familiares e o resultado costuma trazer uma vivência, sobretudo, de surpresa para a qual, frequentemente, não se está preparado. 

Os aspectos emocionais e as questões subjetivas, que emergem da investigação das causas da infertilidade, e do reconhecimento da necessidade de um tratamento de reprodução assistida, invadem a vida dos casais e indivíduos, intimamente. 

O que acontecia entre quatro paredes, como a vida sexual, vem à tona, e passa a ser objeto de pesquisa do caso pela equipe de RA. 

Essa equipe passa, assim, a fazer parte da nova jornada que esses casais devem trilhar, quase como uma família que se forma e com a qual é possível trocar informações e até mesmo segredos que, em grande parte, não são compartilhados com parentes próximos ou amigos.  

Humanização do Atendimento

Nessa relação de cumplicidade-reciprocidade, vários temas devem ser abordados pela equipe, visto que o paciente poderá se confrontar com dilemas éticos e sociais que precisam ser tratados com o profissional especialista. 

A sensibilidade na compreensão das tensões emocionais é imprescindível para tornar o percurso da jornada menos árduo. 

O tratamento de fertilidade é uma trajetória que se compõe de muitos passos a percorrer, dando lugar a diferentes fases que costumam ser marcadas por ansiedades, inseguranças, medos, raiva, tristeza, alegria e euforia. 

São emoções que tanto podem ser complicadas quanto necessárias para o desenvolvimento pessoal e para a elaboração do quadro psicoemocional da infertilidade – isso se houver um espaço de escuta qualificada e humanizada no centro de RA.

A ausência de um diagnóstico que determine a causa da infertilidade, a busca pelo melhor tratamento de RA, as suas diferentes fases, a alta expectativa pelo sucesso, a concretização da tão desejada gravidez, a frustração diante do fracasso, o olhar sobre o tratamento como tentativa e não como garantia de gestação geram reações, comportamentos e emoções que desafiam pacientes e equipes. 

O olhar sobre o todo, sobre a integração corpo-mente-emoção evitará o olhar parcial sobre a “cintura para baixo”, que exclui o olhar da “cintura para cima”. 

Embora todos cheguem com o mesmo sonho, no processo reprodutivo, há uma variedade de condições associadas, que incluem sintomas e características singulares. 

A escuta e o acolhimento proporcionam atenção a cada casal e a cada indivíduo contribuindo para seu bem-estar nesta travessia. A valorização da história de cada paciente como uma vivência única, traz a humanização necessária ao tratamento. 

Autores: Kátia M. Straube, Márcia Gusmão, Rose M. Melamed

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