Infertilidade: como enfrentar o diagnóstico e buscar o tratamento adequado

20 de maio de 2019

Um casal que opta ter um bebê deseja a notícia da gravidez o mais rápido possível. No entanto, estimativas apontam que mesmo sendo saudáveis, mantendo relações sexuais regulares sem método anticoncepcional, a chance de engravidar é em torno de 20%. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), os casais que não usam métodos contraceptivos durante 12 meses e não conseguem engravidar podem ser inférteis. Para mulheres acima de 35 anos, o recomendado é avaliação com 6 meses de tentativas infrutíferas. Após esse período, conforme recomenda a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), o indicado é que o casal procure um médico especialista para realizar exames e fazer uma investigação detalhada do problema a fim de confirmar o diagnóstico, identificar as causas e o tratamento mais adequado.

“Conhecer as causas da infertilidade, saber como lidar com a descoberta e ter a quem recorrer para conseguir apoio é fundamental para conduzir o processo de busca por uma solução”, afirma o médico creditado pela SBRA, Matheus Roque. Ele recomenda que a mulher, com idade igual ou superior a 35 anos, busque assistência após seis meses de tentativas malsucedidas de engravidar.

De acordo com o especialista, o casal não deve perder tempo. Assim que tiver indícios de infertilidade deve procurar um médico especialista em reprodução humana. O profissional capacitado fará toda a investigação necessária para identificar as causas e apontará as melhores alternativas para solucionar o problema. Entre as alterações iniciais que apontam para o problema estão a endometriose, infecção pélvica prévia, menstruações irregulares, síndrome dos ovários policísticos, entre outros. Atualmente, a idade da mulher é um dos principais fatores associados à dificuldade de gravidez, uma vez que o avançar da idade (principalmente após os 35 anos) faz com que a quantidade e qualidade dos óvulos diminua progressivamente, resultando em menores chances de gravidez, incrementando os riscos de aborto e doenças genéticas.

Causas – Estatísticas da OMS mostram que 50 a 80 milhões de pessoas em todo o mundo podem ser inférteis. No Brasil, esse número chega a cerca de 8 milhões. As causas da infertilidade são diversas e podem ser femininas, masculinas ou devido à associação de dificuldades dos dois componentes do casal.

Atualmente, é estimado que cerca de 35% dos casos de infertilidade estão relacionados à mulher, cerca de 35% estão relacionados ao homem, 20% a ambos e 10% são provocados por causas desconhecidas. No entanto, a maior parte é perfeitamente tratável. Por isso, o sonho da maternidade ou paternidade é possível para a maioria.

Para Matheus Roque, a informação é o primeiro passo para o casal enfrentar o problema. “Muitos casais chegam ao meu consultório com medo da infertilidade e frustrados após alguns meses de tentativa, sem saber que ainda há muitas alternativas pela frente e que, na grande maioria dos casos, a gravidez será alcançada com uma ajudinha menor ou maior da medicina ou com as técnicas de reprodução assistida”, revela.

Diagnóstico e tratamento – Segundo o especialista, o diagnóstico de infertilidade é um momento difícil e que causa sofrimento ao casal, podendo gerar apreensão, ansiedade e frustração. “Com a assistência adequada, a grande maioria dos casais pode vencer esses obstáculos e realizar o sonho de formar uma família. Saber lidar com o diagnóstico é fundamental para encontrar o tratamento mais apropriado e minimizar o desgaste emocional que ele pode causar”, afirma Roque.

A evolução dos tratamentos de reprodução assistida tem possibilitado o surgimento de novas técnicas que tem propiciado esperança para quem deseja realizar o sonho de completar a família. Abaixo, o especialista da SBRA aponta os principais tratamentos para infertilidade e as taxas de sucesso de cada caso:

Indução da ovulação com namoro programado: indicado para mulheres com distúrbios de ovulação. Trata-se da utilização de hormônios para estimular o ovário a produzir um óvulo na época fértil, que deve coincidir com o namoro programado nesse período.

– Inseminação intrauterina: técnica na qual o médico transfere os espermatozoides previamente tratados e selecionados em laboratório para o útero, cerca de 24-36 horas após o pico do hormônio responsável pela ovulação. É indicada em casos nos quais há distúrbios de ovulação, endometriose leve, alterações seminais discretas, sempre com a presença de pelo menos uma trompa funcionando adequadamente (avaliada habitualmente pela histerossalpingografia). Sua taxa de sucesso varia conforme a idade da mulher, porém inferior a 20% a cada ciclo de tratamento.

Fertilização in vitro clássica ou convencional: inicia-se com a estimulação ovariana para que a mulher amadureça mais folículos e sejam coletados o máximo óvulos maduros. A coleta é feita por um procedimento que se chama aspiração folicular, feita por ultrassonografia transvaginal sob sedação e dura em média 10-15 minutos. Após a aspiração folicular é feito o tratamento seminal em laboratório, onde serão separados os espermatozoides mais saudáveis para fertilizar os óvulos aspirados. A seguir, cada óvulo é colocado em uma cultura que contém em torno de 40 mil espermatozoides capacitados para que ocorra a fecundação espontânea. Depois dessas etapas, acompanha-se o desenvolvimento celular dos óvulos fecundados. Os melhores embriões são transferidos para o útero da paciente, com a expectativa de iniciar a gestação, ou então podem ser congelados. É um método que obtém até 60% de gravidez, em cada transferência embrionária. O resultado também é dependente da idade da mulher e indicado para casais que já tentaram outras alternativas ou que são impossibilitados de obter uma gravidez naturalmente ou por meio de outras técnicas.

Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI): uma técnica de FIV na qual os procedimentos iniciais, como a estimulação, aspiração, coleta e tratamento de espermatozoides, são idênticos a fertilização in vitro clássica. O que diferencia essa técnica é que o espermatozoide é injetado diretamente dentro do óvulo por meio de uma agulha seis vezes mais fina que um fio de cabelo. É a micromanipulação, uma variação da fertilização in vitro indicada para casos onde os fatores masculinos são severos, a idade da mulher é mais avançada, após congelamento de óvulos na preservação.

Mini Fertilização in vitro (Mini-FIV): uma técnica de FIV na qual na 1a etapa do tratamento (estimulação ovariana) doses mais baixas de hormônios são utilizadas e obtém-se uma quantidade menor de óvulos ao final do processo. Devido ao menor gasto com os hormônios, essa técnica é mais barata que a FIV clássica, embora isso limite o número de embriões que serão formados e, assim, reduza a chance de sucesso do tratamento.

Doação de óvulo (ovodoação): quando a mulher não produz mais óvulos, seja pela menopausa ou pela destruição do tecido ovariano em tratamentos médicos (quimioterapia ou cirurgias ovarianas complexas), quando já se submeteu a diversos tratamentos com os próprios óvulos e não teve sucesso, ou quando se trata de um casal homoafetivo masculino, é necessário o uso de óvulos doados. Todo o processo é feito de forma anônima por meio da clínica de reprodução que busca uma doadora que preencha os requisitos legais e seja compatível com o fenótipo (aparência física) desejado pelo casal. Uma vez que os óvulos são obtidos, segue-se o procedimento padrão da fertilização in vitro com utilização do sêmen do parceiro ou de um banco de sêmen para a fecundação e transferência dos embriões para o útero da mulher que vai gerar a criança. A transferência dos embriões para o útero materno é realizada após alguns dias de preparo do endométrio da mãe, que normalmente é realizado através de hormônios por via oral, transdérmico e vaginal. A chance de sucesso é estimada em até 60% por transferência embrionária.

Doação de espermatozoide (banco de sêmen): Quando o homem não produz espermatozoides ou trata-se de um casal homoafetivo feminino, é necessário utilizar espermatozoides doados anonimamente, que poderão ser utilizados tanto para a realização de uma inseminação artificial quanto de uma FIV. Nesses casos, os pacientes deverão recorrer aos bancos de sêmen. No Brasil, devido algumas restrições legais e também nosso contexto cultural, existem poucos bancos de sêmen. Porém, hoje é possível obter amostras de bancos de sêmen do exterior, de maneira legal e sem grandes dificuldades. A chance de sucesso depende do tratamento a ser realizado (Inseminação intrauterina ou FIV) e da idade da mulher.

Gestação de substituição / doação temporária de útero: O útero de substituição é necessário quando o órgão da mulher apresenta alguma condição que prejudica a implantação do embrião ou impede a progressão da gestação, quando a mulher apresenta alguma condição clínica que a impeça de engravidar ou torne a gestação de alto risco, assim como quando se trata de um casal homoafetivo masculino. No Brasil, é necessário que a mulher doadora seja uma parente de até quarto grau (mãe, irmã/avó, tia, prima, filha ou sobrinha), saudável, que esteja fazendo a doação por pura solidariedade ao casal, sem qualquer recompensa financeira. O resultado depende da idade da mulher que gerou os óvulos e não da mulher que doará o útero temporariamente. A chance de sucesso são as mesmas da fertilização in vitro, variando de acordo com a idade da mulher.

Teste genético pré-implantacional (PGT): é feito quando o casal apresenta alguma doença genética ou seja carreador do gen anormal e deseja selecionar os embriões livres da doença antes da implantação no útero para que a gravidez gere uma criança saudável. Mesmo que o casal não apresente nenhuma doença, o teste pode ser realizado como “screening” genético para a seleção de embriões saudáveis a serem transferidos ao útero da mulher. Esse processo é possível por meio da análise genética de uma/algumas célula(s) do embrião após o processo tradicional de coleta e fertilização in vitro, podendo diagnosticar diversas doenças antes da transferência embrionária. No PGT como forma de “screening”, não se procura uma doença específica, mas sim, é feita uma análise completa do embrião com relação ao número de cromossomos. O objetivo é que seja selecionado um embrião geneticamente normal para ser transferido ao útero da paciente. Ainda é um tema controverso na medicina reprodutiva com relação a quais pacientes devem realizá-lo ou mesmo se deveria ser utilizado de maneira rotineira para todas as pacientes submetidas à FIV.

Por Fernanda Matos – Conversa Coletivo de Comunicação Criativa

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