Especial mês das mulheres: presidente da SBRA fala sobre os desafios da reprodução assistida na atualidade

10 de março de 2020

Hitomi Nakagawa aborda as diversas contribuições das técnicas de reprodução assistida, dá orientações e aponta novidades e desafios para a área nos próximos anos 

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado mundialmente em 8 de março, o blog da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) vai produzir matérias especiais sobre aspectos relacionados ao papel da reprodução assistida para a mulher no século XXI. Ao longo do mês, traremos 3 entrevistas com protagonistas femininas na área, que abordarão os avanços, os benefícios e a importância das técnicas para a realidade de muitas famílias. 

Com a projeção do sexo feminino no mercado de trabalho, é cada vez mais comum o adiamento da gravidez. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde o fim da década de 1990, o número de mulheres que se tornaram mães depois dos 40 anos aumentou 88,5% — passou de 48.402, em 1998, para 91.212, em 2018. Os dados também mostram que, no início dos anos 2000, cerca de 615.705 crianças nascidas vivas tinham mães entre 30 a 44 anos. Quase 20 anos depois, no final de 2018, o número de crianças com mães nessa faixa etária era de 1.054.016. 

Para estrear este espaço especial, entrevistamos a presidente da SBRA, a médica Hitomi Nakagawa, que falará sobre o cenário atual da reprodução assistida no Brasil, seus avanços e perspectivas e sobre o futuro da área, reforçando os benefícios das técnicas que têm realizado sonhos de casais e das novas formações familiares modernas, assegurando às mulheres com câncer, por exemplo, o direito de gestar após a realização do tratamento. Confira a entrevista! 

Em um momento em que tanto se fala da participação feminina no mercado de trabalho e do empoderamento da mulher, o que representa para a senhora estar à frente de uma sociedade médica como a SBRA?

Hitomi Nakagawa –  Meu compromisso à frente da Presidência da SBRA é o mesmo que sempre tive como médica: colaborar com o crescimento técnico da reprodução assistida, visto que, com o nosso trabalho, podemos auxiliar pessoas com dificuldade para engravidar (por causa da idade avançada ou doenças) ou novos modelos de família – a tecnologia, inicialmente desenvolvida para tratar a infertilidade, hoje beneficia pessoas com problemas de procriação. Além de contribuirmos na divulgação de informações confiáveis desse tema tão cercado de mitos e preconceitos para que as pessoas possam ter elementos e decidir sobre suas vidas. Neste sentido, para mim, é muito gratificante estar à frente da SBRA, uma entidade médica que trabalha constantemente em função das mulheres. Inclusive, é perceptível o aumento da participação de médicas, pesquisadoras e cientistas mulheres em todas as áreas da reprodução assistida. São embriologistas, psicólogas, geneticistas, biólogas, enfermeiras, administradoras, nutricionistas e de muitas outras especialidades médicas que têm interface com a área. A beleza e os encantos dessa profissão que contribui tanto para o tratamento de doenças quanto para a realização do sonho de completar famílias são incalculáveis e gratificantes.

A reprodução assistida completa 42 anos neste ano, desde a realização da primeira fertilização in vitro, em 1978, com Louise Brown. A técnica surgiu para ajudar casais com dificuldade para engravidar, mas hoje vai além. Que outras contribuições a senhora pode destacar?

Hitomi Nakagawa – Vou separar essas contribuições em duas classes de indicações: a primeira é que a evolução técnico-científica permitiu que o conceito de reprodução assistida fosse desvinculado do de infertilidade. Na realidade, a ajuda é para que as pessoas possam exercer a perpetuação da espécie. Sendo assim, eu gostaria de destacar algumas contribuições que considero importantes: mulheres com doenças que podem prejudicar a fertilidade – sejam benignas, como a endometriose, ou malignas, como o câncer – e que necessitam de tratamentos radicais ou remoção de órgãos que possam  prejudicar a fertilidade, a exemplo de lesões ovarianas; outra contribuição é para evitar que os bebês de pais portadores de HIV nasçam com o vírus; outra ainda é ajudar casais com histórico de doença hereditária e que corram o risco de ter a doença, com uma qualidade de vida deplorável, morte precoce ou até distúrbios mentais que a impeçam de levar uma vida independente. A biópsia embrionária ou o estudo genético do embrião permite o nascimento do bebê com saúde e até a eliminação da doença da família a partir daquela geração. Além disso, essas técnicas ajudam famílias que têm um bebê com alguma doença incurável a não ser por transplante de células e desejam ter outro filho, mas não querem correr o risco de terem o irmãozinho com o mesmo problema de saúde. Esse irmãozinho pode, inclusive, nascer com compatibilidade para ser doador do irmão doente e curá-lo por meio do sangue do seu cordão umbilical. Essas seriam, também, possibilidades terapêuticas dessas técnicas da reprodução assistida.

As outras contribuições são demandadas por conta do surgimento de novos modelos familiares, como a família monoparental, constituída exclusivamente pela presença de apenas um dos genitores; a  família de pai com pai, de mãe com mãe; ou famílias que adiam a gestação por causa da carreira profissional ou outras razões (devemos lembrar que segundo o IBGE-2019, 37% das mulheres não querem ser mães, mas parte delas podem voltar atrás na decisão). Em todos os casos, é a preservação dos óvulos para ter bebês em uma fase futura da vida.

Sabe-se que o desafio de preservar a fertilidade é ainda maior depois dos 35 anos de idade da mulher. Por buscar uma carreira bem sucedida e a realização de projetos pessoais, elas têm postergado a gestação. Que orientações a senhora daria a essas mulheres?

Hitomi Nakagawa – O mais recomendado é que a fertilização in vitro seja realizada somente em casos específicos, como quando a mulher não consegue engravidar naturalmente. Então, caso isso ocorra em determinado momento por fatores externos ou de saúde, o ideal é realizar a preservação de gametas e, nesse caso, ela terá uma possibilidade – não é uma garantia – de conseguir engravidar com aqueles óvulos futuramente. Antes, sem a existência dessa técnica, não havia essa possibilidade e muitas mulheres eram condenadas a uma vida sem filhos.

Quais são as figuras femininas cujo trabalho científico contribuiu para o avanço da medicina reprodutiva?

Hitomi Nakagawa – No Brasil, eu gostaria de destacar três profissionais da área da reprodução assistida: a embriologista clínica Cláudia Petersen Rodrigues da Costa, primeira especialista em embriologia clínica do Brasil e uma das figuras mais respeitadas na área; a médica Maria do Carmo Borges de Souza, doutora em ginecologia, obstetrícia e mastologia, também uma grande referência no Brasil e, atualmente, preside a Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (REDLARA); e a doutora Bela Zausner, uma das mulheres pioneiras no campo da reprodução humana no Brasil. No âmbito internacional, eu destaco Jean Purdy (in memoriam, pioneira da FIV, que formou o trio de trabalho com Patrick Steptoe, médico, e Edwards, embriologista, não permitindo que este último desistisse do projeto mesmo com mais de 200 tentativas frustradas), as embriologistas Maria Cristina Magli (Itália) e Glória Calderón (Espanha), Maryse Bonduelle e Inge Liebaers (Bélgica – geneticistas com estudos sobre os bebês de FIV), Soledad Sepúlveda (in memoriam, embriologista pioneira na América Latina, uma das fundadoras da REDLARA e que treinou inúmeras embriologistas, inclusive brasileiras). São  inúmeras essas mulheres, que trabalham incógnitas, às quais gostaria de homenagear por toda dedicação à vida.

Sabemos que mulheres que não conseguem engravidar têm direito, por lei, a receber ajuda do governo para fazer inseminação artificial. O Brasil oferece o tratamento totalmente gratuito, porém a demanda segue sendo grande demais para atender a todos os casos. Como mudar essa realidade? 

Hitomi Nakagawa – A única forma de mudar essa realidade é por meio da educação. Com acesso a informações, a mulher pode evitar doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada, porque foi educada para isso; vai ter conhecimento e informação necessários para se prevenir e poder melhorar a sua qualidade de vida. Por isso que eu repito: a educação é o melhor caminho. É o que a Coreia do Sul, o Japão, a Finlândia e a Suécia, por exemplo, fizeram com as suas populações. Ou seja, o amplo acesso à educação é a grande solução para que as pessoas possam exercer uma maior vigilância sobre legisladores, gestores e suas políticas públicas e do próprio serviço público para que seja de qualidade e integral, propiciando a existência de uma realidade mais justa para todos.

O que a mulher pode esperar da reprodução assistida nos próximos anos? Existem técnicas prestes a chegar ao Brasil? 

Hitomi Nakagawa – Um dos pontos mais críticos para a mulher é relacionado à idade ovariana. Não importa quão jovem ela pareça fisicamente, os óvulos envelhecem com o passar dos anos, o que provoca perda da saúde reprodutiva dos ovários e óvulos associada a um declínio no número de folículos ovarianos. Então, nossa expectativa maior é para a descoberta de uma tecnologia capaz de fazer o rejuvenescimento ovariano real, ou que introduza células-troncos para os óvulos voltarem a se ativar, como em mulheres com menopausa precoce, com problemas imunológicos e que ainda tenham folículos e não ovulam, ou até formar novos folículos ovarianos. Quando conseguirmos as fórmulas definitivas com bons resultados para essa reativação, será maravilhoso. Mas isso ainda está no campo da pesquisa.

Um outro ponto que ainda precisamos evoluir muito é no tocante à avaliação do risco e benefício da investigação de carreadores de doenças genéticas em casais consanguíneos. Apesar de sadios, os casais podem ser portadores de genes anormais que, se combinados com o do parceiro e resultar em dupla, a prole pode vir a ter doença grave ou incompatível com a vida. Essa investigação do casal é feita por meio de um painel genético de abrangência variável em relação ao número de doenças. No entanto, é necessário definir melhor os pré-requisitos necessários para que as pessoas possam se submeter a esse processo, especialmente em relação a quando indicar, qual o rastreamento adequado em relação ao painel, de acordo com as doenças mais presentes em determinadas populações, e quais seriam os limites da sua aplicação.

Uma das maiores limitações que temos é a respeito da ética de um futuro com bebês projetados por meio da edição gênica, técnica que poderia ser usada para corrigir partes do DNA anormal (causadores de doenças graves), inclusive de seres humanos. A técnica ainda está no campo da ficção científica e desperta alguns questionamentos, como o risco de ser adotada para outras finalidades, inclusive levantando dilemas éticos que precisamos considerar. Ou seja, a edição genética de embriões ainda traz um sem número de questões e desafios éticos, incluindo se a mesma poderia ser usada para melhorar características humanas usuais, como peso ou inteligência, ou ainda criar novas, como visão noturna ou superforça.

Em questão de idade, localização, níveis econômico e escolar, entre outros parâmetros, como a senhora definiria, com base em pesquisas e levantamentos, o perfil da brasileira que busca a FIV atualmente? 

Hitomi Nakagawa – Hoje, as pessoas aceitam melhor as técnicas de reprodução assistida. Antigamente, o assunto provocava temor e apreensão nas pacientes, que chegavam a chorar nos consultórios com medo de ser essa a indicação do seu tratamento. Em relação ao perfil das mulheres, observamos que ainda é marcado por uma população com idade entre 36 e 37 anos – média de idade alta em termos reprodutivos. Isso reflete no resultado dos procedimentos, uma vez que a qualidade dos óvulos nessa faixa etária já está mais comprometida. O tratamento não é impossível, mas tem maior risco de abortamento e a chance de engravidar por transferência demora mais, exceto quando a paciente faz a biópsia embrionária. 

Além disso, as mulheres que procuram a preservação de óvulos em sua maioria, tem melhor autonomia financeira, ou seja, conseguem arcar com os custos dos tratamentos e são pacientes socioeconômica e culturalmente mais independentes. Em relação ao nível escolar, eu acredito que depende de onde ela está: no serviço público ou privado. Em relação ao serviço público, observamos que são mulheres de idade média menos avançada. Já no serviço privado, como elas têm maior opção e mais acesso à informação, são mulheres mais conscientes, melhor informadas e com um nível escolar mais alto. Além disso, são pessoas que pesquisam muito na Internet para saber como, onde e com quem elas querem fazer o procedimento. Já com relação à localização geográfica, a demanda acompanha a concentração populacional e é predominante na região Sudeste e depois no Sul do país. 

A possibilidade de planejar a gravidez (métodos contraceptivos, congelamento de óvulos, tratamentos de fertilização), aliada ao aumento na expectativa de vida, mudou a maneira como as mulheres enxergam a maternidade? 

Hitomi Nakagawa – O aumento na qualidade de vida das mulheres dos 40 a 50 anos foi uma conquista muito grande do mundo atual. Mas, para elas, a visão em relação à falência ovariana pode ficar distorcida e merece atenção. Geralmente, as pessoas falam “sou jovem, olha a minha pele, não tenho rugas, olha meu corpo”, tentando justificar que ainda estão prontas para uma gestação, mas é importante destacar que o ovário não evolui na mesma proporção, porque a reserva de óvulos é finita. Por esses motivos é que, se a mulher deseja ter um filho no futuro, deve se preocupar com a sua reserva ovariana. Nesse sentido, é comum vermos muitas pessoas projetando a vida saudável que leva: de ir à academia, comer bem, sono adequado etc., no ovário. Claro que beneficia, mas esse órgão tem uma fase em que a perda e a degeneração dos folículos são muito rápidas – o processo é  irreversível.

Por outro lado, a maneira de enxergar a maternidade quando a mulher já é madura – em uma fase onde ela já está mais estável, inclusive emocionalmente –, se torna uma experiência positiva, principalmente, quando é planejada.

Foto: Karina Zambrana

Por Fernanda Matos – Conversa Coletivo de Comunicação Criativa

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