Coronavírus: existe risco de contaminação no congelamento e descongelamento de óvulos?

21 de agosto de 2020

Especialistas da SBRA esclarecem que, apesar de não existirem evidências de contaminação, clínicas investem em biossegurança para preservar a saúde dos pacientes e garantir o sucesso do procedimento.

No congelamento de óvulos, o nitrogênio líquido (N2L) exerce papel primordial, pois é ele que preserva o material genético usado na reprodução assistida. Entretanto, especialistas têm discutido até que ponto ele também pode ser um vilão no processo, se oferecer, teoricamente, perigo de contaminação pelo SARS-COV-2. Esses riscos durante o congelamento e descongelamento de óvulos foram apresentados por profissionais da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) no livro “Interfaces: Reprodução Humana e Covid-19”, primeira publicação colaborativa sobre Reprodução Assistida em tempos de pandemia da Covid-19. 

O N2L é um fluido criogênico, pois causa rápido congelamento ao entrar em contato com o tecido vivo. Por isso, ele é usado para a criopreservação de tecidos, sêmen, oócitos e embriões. Nas modernas técnicas, como a vitrificação, o embrião pode entrar em contato com o N2L. Isso traz vantagens no processo, porém  pode aumentar, o risco de contaminação do embrião por vírus, bactérias, fungos e esporos, em potencial – a maioria dos micro-organismos em associação com material biológico ou em culturas limpas sobrevivem em baixas temperaturas, incluindo o nitrogênio. 

Segundo Sofia Andrade, Janaína Maciel, Eduardo Veloso e Ana Claudia Moura Trigo, especialistas em Reprodução Humana creditados pela SBRA, mesmo que ainda não hajam evidências sobre isso, as clínicas especializadas têm investido em biossegurança e protocolos específicos para preservar a saúde dos pacientes e  trabalhar para o sucesso do procedimento. 

Para Sofia Andrade, é preciso aguardar pesquisas futuras  e entender melhor o impacto do SARS-COV-2 nos aspectos reprodutivos femininos e masculinos. “Até o presente momento, não foi relatada a presença de SARS-COV-2 no nitrogênio líquido utilizado em técnicas de Reprodução Assistida. Contudo, baseado em estudos com outros patógenos, é  possível que haja um potencial de sobrevida do coronavírus ao congelamento e descongelamento”, explica. Para ela, independente das evidências atuais, o risco de contaminação de gametas ou embriões no laboratório  é minimizado ao seguir os protocolos de biossegurança. 

Embora as clínicas já utilizem medidas de segurança nos laboratórios durante os procedimentos habituais,  foram aumentados os cuidados durante a pandemia, principalmente na manipulação das amostras de óvulos e embriões, para se evitar a contaminação. 

Janaína Maciel cita algumas das medidas que estão sendo tomadas: “Estamos adotando maior distanciamento entre os embriologistas; aumento da frequência da higienização pessoal utilizando técnicas assépticas; uso de máscara cirúrgica e de protetor facial durante qualquer aproximação do embriologista com outra pessoa, seja na rotina entre profissionais ou pacientes; limpeza minuciosa de equipamentos metálicos do laboratório; limpeza constante das bancadas, entre outros cuidados”, relata.

Vale ressaltar também que normas de biossegurança adequadas à manipulação de amostras contaminadas também são utilizadas visando o controle dos agentes infecciosos nos laboratórios de reprodução assistida, o que possibilita a segurança dos tratamentos em pacientes portadores do vírus HIV e Hepatites B e C. 

Protocolos específicos – Segundo Eduardo Veloso Leahy, muitas questões que envolvem o novo coronavírus permanecem ainda sem resposta, por isso, os pacientes que estão sendo preparados para a reprodução assistida tiveram que ser enquadrados em protocolos específicos adotados pelas clínicas. “ Não se conseguiu descartar que a contaminação das amostras  possa ocorrer durante o armazenamento das células nesse meio.  Partículas de DNA viral puderam ser encontradas em material seminal,  porém ainda não há comprovação de que a introdução inadvertida de microrganismo no processo seminal  possa potencialmente contribuir para uma infecção na mulher inseminada”, explica. 

Assim como entidades científicas internacionais como a Associação Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), a Sociedade Europeia de Reprodução e Embriologia (ESHRE) dentre outras,   a SBRA em conjunto com a REDLARA,  publicaram notas e posicionamentos para este período de pandemia. Clique aqui e saiba mais.  

Adiar ou não o procedimento? Eis a questão – Diante de riscos e incertezas, muitos pacientes ainda têm dúvidas quanto à realização do tratamento durante a pandemia. Os especialistas recomendam cautela. “Para quem pode esperar, o ideal é aguardar mais um pouco até que as  condições epidemiológicas locais sejam mais favoráveis. Ainda não sabemos os riscos que uma infecção pelo SARS-Cov-2 pode causar em um embrião ou feto, quais as possíveis consequências para a formação dos seus órgãos. Lembrando também que qualquer infecção pode levar a uma maior chance de aborto ou parto prematuro”, avalia Ana Claudia Moura Trigo. 

Para ela, o ideal é que cada paciente avalie o caso com o médico que o acompanha. “Para pacientes que têm indicação de procedimentos de baixa complexidade, com boa reserva ovariana, a orientação é aguardar um pouco mais. Para aquelas com idade avançada, baixa reserva ou que necessitem preservar a fertilidade devido a tratamentos oncológicos, uma opção é a criopreservação de oócitos ou embriões”, explica a médica. 

Apesar das recomendações médicas baseadas em análise científica do cenário, há um prejuízo emocional para os pacientes que precisam adiar o tratamento. “A interrupção por um tempo indeterminado, como no caso da pandemia do novo coronavírus, principalmente para aqueles casais que fizeram o aporte financeiro, cria ansiedade e incertezas que podem abalar a fé e a credibilidade no tratamento escolhido”, afirma Eduardo Veloso. 

Contudo, ele explica que todas as sociedades médicas, inclusive a SBRA, estão se embasando cada dia mais para orientar os especialistas e recomendar o retorno total dos tratamentos o mais rápido possível  inclusive com base em políticas de segurança para laboratórios contra o novo coronavírus. 

Por Fernanda Matos – Conversa Coletivo de Comunicação Criativa

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