Artigo: Saúde reprodutiva em tempos de Covid: O que sabemos e aprendemos nesta pandemia

28 de dezembro de 2020

Por Lister de Lima Salgueiro, andrologista e especialista em reprodução assistida da SBRA

Neste ano de 2020 tivemos, talvez, a maior catástrofe médico-social dos últimos 100 anos. Uma pandemia alterou democraticamente a vida de todos: ricos e pobres; pretos, brancos e amarelos; jovens, idosos e tantas outras pessoas. 

Durante esse período, medidas restritivas precisaram ser tomadas frente ao ineditismo da doença e de suas características. Além disso, muitas especulações surgiram na área de reprodução assistida, algumas delas relacionadas aos riscos da doença para as mulheres grávidas ou sobre a possibilidade de contaminação pelo sêmen, sobre os possíveis riscos para embriões congelados e sobre a possibilidade de transmissão vertical do vírus para os neonatos. 

Com os questionamentos – alguns desmentidos e outros validados posteriormente –, nós da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) tivemos a ideia de escrever um livro para abordar temas relacionados à pandemia e a nossa área de atuação. Assim, num esforço hercúleo, mais de 100 autores produziram conteúdo para a elaboração do livro “Interfaces – Reprodução Humana e Covid-19”, obra com mais de 300 páginas pioneira no mundo. 

O livro mostrou para nós, que pertencemos à SBRA, que a união faz mesmo a força. Com este material, e com os aprendizados obtidos por estudos no mundo todo, pudemos constatar que as grávidas não têm um risco maior de mortalidade, mas a presença da infecção na gravidez pode levar a partos prematuros, induzidos ou não; que não existe contaminação pelo sêmen e embriões congelados, o que levaria ao uso de múltiplas lavagens seminais, como nos casos de Aids; que não existe transmissão por via sexual, apesar de poder haver sequelas no funcionamento sexual; e que a transmissão vertical é considerada raríssima — na maioria dos casos de suposta transmissão vertical, estas ocorreram por contaminação hospitalar ou por visitas. 

A partir dos dados elencados no livro – que também abrangeu as recomendações da SBRA e das principais autoridades da área de reprodução assistida no mundo –, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que clínicas de reprodução assistida tivessem planos de proteção para a equipe e para as pacientes. 

Inicialmente, foi recomendado que as clínicas terminassem o tratamento de casos em andamento e que congelassem os embriões. Em uma segunda fase, a recomendação foi para que os médicos seguissem com o tratamento dos casos sensíveis ao tempo e de oncofertilidade, sempre congelando para transferência posterior. Na sequência, as clínicas foram autorizadas para a realocação de uma abertura gradativa, conforme se publicaram mais dados e, por fim, a maioria dos estabelecimentos puderam retornar os atendimentos e voltar ao seu normal. 

A partir daí, surgiram novos termos de consentimento – que passaram a informar às pacientes sobre os riscos que permitiram a retomada –, orientando sobre gravidez e sobre protocolos necessários para evitar a transmissão da Covid-19. 

Durante todo esse período, muitas pessoas se esforçaram para imaginar como seria o futuro durante e depois da pandemia. Consultores alertaram as clínicas sobre a perda de movimento de pacientes e as análises variaram de pessimistas a pouco otimistas.  Mas a vida é mesmo uma caixinha de surpresas… 

Com a verificação mais realista da finitude da vida, muitas pessoas resolveram seguir em busca dos seus sonhos. E o resultado foi este: o mercado nunca vendeu tantos carros, as pessoas nunca construíram ou compraram tantas casas e apartamentos, a exportação aumentou, o número de reformas de casas subiu e, como não poderia deixar de ser, os casais decidiram retomar os planos e seguirem em frente em busca dos seus projetos familiares. 

Este ano trouxe igualmente benefícios e aprendizados para a comunidade científica. Tivemos uma maior interação dos membros da SBRA pelos grupos do WhatsApp, o que nos fez conhecer outros colegas da área;  a nossa união e a força corporativa da SBRA nos mostraram que podíamos editar um livro de mais de 300 páginas em 21 dias; a condução do grupo pela presidência e diretoria da Sociedade nos mostrou a força que temos em ações nacionais e internacionais; as diversas reuniões virtuais que tivemos ao longo da pandemia nos mostraram que podemos ter acesso à ciência de ponta, mesmo sem o contato físico, das conversas não oficiais e da troca de dados científicos dos corredores das exposições; e tantas outras coisas. 

Para 2021, esperamos ansiosamente pela vacina anti-Covid-19 e pelo retorno definitivo da normalidade em nossas vidas.

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