O GLOBO – IMPORTAÇÃO DE BANCO DE SÊMEN

23 de abril de 2018

JORNAL O GLOBO | 07/04/18 – A notícia de que a maioria dos brasileiros que recorrem a bancos de sêmen nos Estados Unidos busca doadores brancos e de olhos azuis, publicada por um jornal americano no mês passado, chamou a atenção de especialistas e gerou muita discussão sobre racismo e eugenia. Em um país tão miscigenado como o nosso, afinal, por que se busca esse tipo de padrão lá fora? A seguir, mães, médicos e outros profissionais analisam a questão e refletem sobre o que pode estar por trás dela.

Entre 2011 e 2016, a importação de sêmen dos EUA para inseminações artificiais no Brasil cresceu 2.625%. Dados preliminares de 2017 já indicam que o crescimento segue. Mas o que mais chama a atenção nesses dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o perfil dos doadores escolhidos: 95% deles são brancos, 52% têm olhos azuis, 64% têm cabelos castanhos e 27% são louros.

Os números acenderam uma preocupação na médica paulista Hitomi Nakagawa. Inseminações de brasileiras com sêmen de americanos tendo essas características poderiam alterar a cara da nossa população? Presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), ela participou de uma reunião em Brasília com representantes da Anvisa justamente para discutir o assunto.

— A conclusão foi que a entrada de amostras, mesmo que esteja crescendo muito, ainda é irrelevante para a massa da população brasileira — diz Hitomi.

A preferência estética, porém, sugere algo mais:

— Nossa cultura vê mais beleza em olhos claros. Pode haver aí um aspecto sociológico inconsciente.

Ao longo de seis anos, houve 1.090 importações de sêmen dos EUA para o Brasil. Enquanto isso, anualmente, 30 mil inseminações foram feitas com o “produto nacional”, e 3 milhões de brasileiras engravidam pelo método natural. Mas a polêmica em torno dos amostras, detonada por uma reportagem publicada em março no jornal americano “Washington Post”, não tem a ver com a quantidade. O que está em jogo aqui é, novamente, o perfil dessas importações.

O tribunal das redes sociais foi rápido na sentença, acusando médicos e possíveis mães e pais de eugenia e racismo. Especialistas em reprodução argumentam, porém, que o fenótipo procurado no exterior é apenas um reflexo do tipo de brasileiro que paga pelo serviço.

BELEZA AMERICANA

Nossas classes A e B, majoritariamente brancas por motivos que remontam a 500 anos, estariam simplesmente buscando o espelho. Já a opção pelos EUA viria de um conjunto de fatores. Aqui, os bancos de sêmen trabalham com doações, e as informações sobre os doadores são mínimas. Nos EUA, trata-se de uma relação de compra e venda, com amplo perfil sobre o fornecedor do produto, incluindo fotos (o que é proibido no Brasil), para escolhas mais precisas.

Nem tudo é tão simples. Surpreso com os tais 52% de olhos azuis nas escolhas dos brasileiros, o antropólogo Roberto DaMatta crê que há mais coisas por trás disso:

— Prevalece o padrão estético ocidental, disseminado pela mídia americana e mesmo pela publicidade brasileira, uma baita contradição num país mestiço como o nosso. Apesar dos avanços, o louro de olhos azuis é e vai continuar sendo a referência.

A Anvisa começou a monitorar esse tipo de importação em 2011. No mesmo ano, lançou um documento com procedimentos e regras sanitárias sobre o assunto. Em 2012, um dos maiores bancos de sêmen americanos, o Fairfax Cryoank, passa a ter um representante no Brasil. Hoje, é o que mais envia amostras de sêmen para cá — 73% do total nos últimos dois anos.

Além dos laços com clínicas brasileiras, contribui para a popularidade dos bancos americanos o tal detalhamento no histórico do doador. Ao contrário das escassas informações disponíveis sobre os brasileiros (leia mais abaixo), no caso dos americanos é possível saber detalhes da ficha médica, ter um perfil psicológico, ver fotos da infância e até mesmo ouvir a voz do dono do sêmen. Pelas leis dos EUA, os nascidos de inseminação têm até o direito de conhecer o doador ao completarem 18 anos.

“FISSURA PELO BEBÊ JOHNSON”

Casada com uma mulher, a designer B., que prefere não ser identificada, acaba de receber a amostra de sêmen de um doador americano louro e de olhos azuis. E jura que só fez essa escolha porque ela e sua mulher são louras de olhos claros.

— Faz parte do sonho da gravidez ter um filho com a nossa cara. Se uma de nós fosse negra, buscaríamos um doador negro, pardo. Mas sei de muito casal moreno de olho escuro que vai atrás de criança de olho claro. É a fissura pelo Bebê Johnson.

B. lembra que, durante a seleção, sentiu-se pouco à vontade em vários momentos.

— Eu falo que é como “brincar de Deus”. Havia um doador que a gente tinha adorado, mas o relatório dizia que oito parentes dele tinham morrido de câncer. Dispensamos. É uma seleção absolutamente artificial. Mas, se posso diminuir as chances de o meu filho ter câncer, vou fazer isso.

Já a advogada E. tenta pela quarta vez uma fertilização in vitro. Ela conta que uma de suas grandes preocupações foi escolher um doador que tivesse características como as dela e do marido, que são brancos, de cabelos e olhos castanhos.

— Quero um bebê no qual eu possa, de alguma forma, me reconhecer. Não quero um filho de “Caras” — diz.

Aos 38 anos, a moça afirma que só recorreu a um banco americano por recomendação do médico que a acompanha. Ele argumentava que as técnicas usadas lá garantiriam um “material de melhor qualidade”.

— Também achei as informações sobre o doador muito ricas. Recebi o histórico dele desde o tataravô. Isso nos deixa mais confiantes, não parece um tiro no escuro, como eu tenho a sensação de que é no Brasil, onde poucas informações são dadas.

SENSACIONALISMO OU EUGENIA?

A médica Vera Brand, fundadora e diretora do maior banco de sêmen do Brasil, o Pro-Seed, rechaça que exista tentativa de eugenia por parte dos futuros pais e mães que escolhem doadores brancos nos EUA:

— Há sensacionalismo na forma como os dados são interpretados. Há prevalência de caucasianos nos EUA. Se a pessoa escolhe obter sêmen de lá, se depara com um banco repleto de doadores brancos, louros e de olhos azuis.

Alexandre Rodrigues, escritor e mestre em escrita criativa pela PUC-RS, pesquisa distopias. E recorda que, nessas narrativas sobre futuros imperfeitos, o controle da reprodução é frequente. Em “Admirável mundo novo”, a genética é usada para construir um “mundo perfeito”. Em “1984”, é preciso controlar as relações, “mas o sexo, no fim, liberta”.

— Vejo pontes desses dados da Anvisa com o filme “Gattaca”, em que tudo é melhor para aqueles considerados geneticamente mais saudáveis. Naquele mundo, é eugenia, com propósito claro. No Brasil, vai saber… Mas é impossível não pensar nisso na sociedade e no momento em que vivemos.

UMA AMOSTRA DO BRASIL

Vera Brand, diretora do Pro-Seed, diz que os doadores brasileiros são em sua maioria caucasianos, com pele entre branca e morena, estatura em torno de 1,75m, cabelo castanho, olhos castanhos e tipo sanguíneo A+. No Pro-Seed, por exemplo, há 28 doadores negros, de um total de 164 homens.

COMO É A DOAÇÃO AQUI

Anônima e sem dinheiro em troca. Podem doar homens de 18 a 50 anos. O doador brasileiro assina um termo em que permite a doação e abre mão de direitos e responsabilidades sobre a criança. Quem compra o sêmen tem acesso a características principais, como cor de pele, cabelo e olhos, tipo sanguíneo, altura e peso.

E COMO É NOS ESTADOS UNIDOS?

Em geral, os doadores têm de 18 a 39 anos e são pagos. O processo é anônimo, o doador também não tem direito sobre a criança, mas ela pode conhecê-lo quando tiver 18 anos. Além das informações básicas sobre quem doa, relatórios trazem seu histórico médico e psicológico, hobby, profissão, religião, voz e fotos na infância.

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